terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Padre Abel Varzim

Padre Abel Varzim

Justamente quando púnhamos pé naquele “C. D. 4” de asas velozes e pulmões valentes, que nos levou à Suíça, coração desta valentudinária Europa, empreendia ele a derradeira viagem, não para qualquer região de lagos e montanhas, mas para melhor, muito melhor: a mansão do Santo Monte Eterno, no lago da Paz perpétua, de águas vivas que para sempre dessedentam.

Conheci-o ele, ao Padre Dr. Abel Varzim, na Igreja da Encarnação, em Lisboa, quando ali era pároco. Levara-nos lá um movimento esboçado pelo Dr. José da Costa Moreira, com o fim de se obter uma melhor compreensão entre os cristãos das duas escolas exegéticas do Evangelho único, trazido por Jesus Cristo. Pretendia-se criar uma Irmandade ou Grémio da Boa Vontade... Fôramos antes recebidos pela fidalga lhaneza do senhor Conde de Azinhaga, no evocador palácio a S. José. Haviam-se já trocado impressões com o desassombro que a lealdade cortês sugere.

E agora ali estávamos nas dependências dum histórico templo lisboeta, rodeados de objectos evocadores de passos certos ou errados, como sempre são os da família humana, por toda a parte onde ela vive e sofre.

Éramos um grupo de cristãos reformados, convidados por cristãos romanos, na busca aparentemente sincera duma aproximação humana, na qual, ao ver-se o corpo simbólico da Humanidade ferido e roubado na estrada da vida, se quer que ninguém seja imitador do sacerdote ou levita da parábola do Nosso Senhor, ao passarem de largo; ainda que, nos cuidados fraternos, se possa parecer cismático, como o era afinal o samaritano compadecido.

O Padre Abel Varzim, o pároco que veio a presidir às primeiras reuniões, com firme serenidade e seguro poder de observação, doutor formado em Lovaina, trabalhara no “Jocismo”, movimento operário baseado na doutrina social de Roma, segundo os princípios da Encíclica de Leão XIII “Rerum Novarum”; representara a sua Igreja em duas legislaturas da Assembleia Nacional; fora professor num seminário e agora, desde 1951, paroquiava aquela área da cidade que inclui o Bairro Alto, o que o levara a procurar extinguir o cancro social da prostituição, tradicionalmente ali enraizado. Cristão católico educado na disciplina da Unidade-a-todo-o-transe, buscada e até agora jamais encontrada, mas sempre exigida pelo adorado Fundador, pela primeira vez presidia a tão heterogénias sessões. Os visitantes, protestantes de vário matiz, apresentavam-se como testemunhas da pureza bíblica, aliás, vista em diferentes perspectivas e fruto da liberdade que o Filho de Deus prometeu e concede, mesmo apesar de não sabermos fazer um uso perfeito dela. Ali nos manifestávamos todos, nesse misto de anelos de genuidade e de fidelidade diferentemente exercidos e por isso desencontrados no resultante final.

Depois de alguns discursos expositivos das respectivas posições, o Dr. Varzim, espírito prático e mentalidade experimentada, fez aos presentes a seguinte pergunta: “que poderemos nós desde já realizar?”, ao que procurei dar resposta, filha também de longa experiência: “Se nos deixarmos de alcunhar, aos cristãos romanos, de idólatras, e aos reformados, de herejes, uma primeira iniciativa seria a de interceder, junto de particulares ou não particulares, a favor dos perseguidos por sua crença religiosa, vítimas da intolerância, em casos de despedimento, preterição ou maus tratos”.

Imediatamente o Padre Varzim replicou: “eu quero fazer parte dessa comissão, se se construir”. E pouco mais se pôde adiantar; mas marcaram-se posições.

Era esse o homem que Deus agora chamou, na idade de 62 anos. Passaram-se tempos sem que nada se pudesse realizar, decerto por falta de maturidade no ambiente em que vivemos. Vinha longe ainda o pontificado de João XXIII e a convocação do Vaticano II com observadores ortodoxos e evangélicos.

“Quantum mutatus ab illo!” poderíamos agora exclamar, na língua que já não é exclusiva, na liturgia da tradição ocidental. E acima de tudo a Bíblia já é lida, difundida e citada como o não era.

Eduardo Moreira,
Rostos que vi, mãos que apertei,
Portugal Evangélico, nº 526-528, Agosto–Outubro de 1964, pp. 5-6.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Da Pena de Edurado Moreira (2)

O bisbilhoteiro preocupa-se mais com o meu passado; o meu fornecedor, esse está atento ao meu presente; mas o meu verdadeiro amigo cuida com interesse do meu futuro.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Da Pena de Eduardo Moreira (1)

Ausculto o Futuro estudando o passado.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A difusão da Bíblia em Portugal: ecos da acção de Robert Reid Kalley

A difusão da Bíblia em Portugal: ecos da acção de Robert Reid Kalley

A existência, no seio da minoria protestante em Portugal, de relações endógenas e exógenas de uma diversidade e complexidade substanciais, tende a demonstrar a desproporcionalidade entre a sua expressão quantitativa e sua importância qualitativa. Essa discrepância baseia-se, desde logo, no facto da existência dessa minoria constituir a representação da diferença, no sentido em que, a lenta multiplicação de fiéis evangélicos num país hegemonicamente católico, resulta na verificação de que, de facto, não existia uniformidade plena. Por conseguinte, apesar do país ter sido repetidamente representado como monolítico em termos religiosos, essa imagem não correspondia à verdade e, apesar da Igreja Católica definir frequentemente Portugal como uma nação imune à influência protestante, procurando controlar e garantir essa mesma imunidade, esse desiderato não foi plenamente alcançado, uma vez que, a existência de comunidades reformadas, ainda que minoritárias, a contradizia.

Ao longo do século XIX, sobretudo a partir da década de 40, desenvolveu-se, em Portugal, uma série de projectos e iniciativas sociais cuja natureza espelha, em certa medida, um plano de intervenção e implementação do cristianismo evangélico no interior da sociedade portuguesa (1).

Ocupou lugar de destaque a valorização da divulgação da Bíblia e de um novo projecto religioso junto das populações. As Sagradas Escrituras eram, efectivamente, a base partilhada e a característica distintiva do contexto hegemonicamente católico para todos os cristãos evangélicos na sociedade portuguesa oitocentista, uma vez que se opunha «[…] à prática religiosa e sacramental dominante e, na visão protestante, era uma ligação aos primórdios do cristianismo, à sua pureza e à sua verdade; evangelizar, fazer cristãos, era assim sinónimo de dar a conhecer a Bíblia» (2). A leitura e a divulgação das Escrituras desempenharam desde o início um papel essencial no proselitismo protestante em Portugal (3), sendo que todos os pioneiros desse protestantismo encetaram a sua missionação através da formação e integração de grupos de reflexão bíblica que acabaram posteriormente por se estruturar como comunidades protestantes. Reveladoramente, Robert Kalley apresentava-se nas primeiras páginas das Observações à instrução pastoral do Ex.mo Bispo do Porto, D. Américo, sobre o protestantismo, não como um protestante ou evangélico ou presbiteriano, mas como «Dr. em Medicina pela Universidade de Glasgow, aprovado na Escola Medico-Cirurgica de Lisboa e na do Rio de Janeiro, etc, leitor assíduo da Sagrada Escriptura durante o longo período de quarenta e tantos annos» (4). Essa centralidade da Bíblia manteve-se, de facto, como um dos pilares da sua actividade prosélita, bem como das comunidades que se lhe seguiram.

A difusão da Bíblia gerou uma reacção incisiva por parte das autoridades eclesiásticas e civis que, críticas em relação à utilização da mesma como instrumento de divulgação dos denunciados «erros protestantes», emitiram frequentes ordens de confiscação de exemplares bíblicos de origem evangélica (5). A reacção das comunidades reformadas e dos seus agentes difusores começava desde logo por se alicerçar numa postura defensiva em relação às citadas acusações de falsificação e manipulação (6). Uma vez provada a qualidade e rigor das edições bíblicas com origem protestante, seguia-se a procura da razão pela qual os católicos repetiam aquelas acusações e procuravam limitar a divulgação bíblica, o que resultava numa inversão das críticas. Nessa altura, eram as fontes evangélicas que se questionavam: «Porventura será por saber que […] seu systema transtorna o Evangelho de Deus, e TEM MEDO QUE O POVO SAIBA?» (7). O questionamento dos propósitos dos católicos e as insinuações em relação ao comportamento dos mesmos acabavam então por redundar na caracterização da hierarquia católica como obstinada na manutenção do povo na ignorância e na violentação contínua dos ensinamentos dos Evangelhos (8).

Porém, a partir das décadas de sessenta e setenta, apesar de persistirem posições firmes em relação à necessidade de limitação da difusão das Escrituras, a Igreja Católica revelou alguma abertura em relação ao papel a fornecer à divulgação bíblica. Essa abertura foi interpretada pelos protestantes portugueses como uma cedência. Nesse sentido, transmitia-se a ideia de que a hierarquia católica romana portuguesa tinha tido, finalmente, que reagir à pressão evangélica sob outra forma que não a da restrição, naquela que foi descrita por fontes protestantes como a ocasião em que «[…] apertada entre as pontas do terrível dilema – ou auctorisar a leitura da Bíblia, ou explicar os motivos por que tão severamente a prohibia – a Egreja de Roma não podia deixar de optar pela primeira. Transigiu, pois; não arrependida e contrita, mas receiosa e desconfiada […]» (9). No entanto, notava o autor, essa aparente abertura foi rapidamente matizada com a integração nessas edições bíblicas católicas de comentários e explicações determinados pela hierarquia eclesiástica que, desse modo, reassumia o controlo das consciências (10).

Defendida a pertinência e a legitimidade da difusão das Sagradas Escrituras, para além de reforçarem esse instrumento como uma parte integrante e essencial da evangelização, os representantes do cristianismo reformado testemunhavam acerca da eficácia desse método fundamental. Tal acontecia não apenas em relação aos missionários estrangeiros que desenvolviam actividades em Portugal, mas também em relação aos crentes e pastores nacionais.

Zacarias Clay Taylor escrevia, em 1909 à Convenção Baptista do Sul dos E.U.A., dando conta de que, apesar de difícil de «trazer para o Evangelho», o português, quando convertido «é geralmente piedoso e muito activo», exemplificando: «[…] o nosso irmão Sousa e Silva agora falecido, foi encarcerado 13 vezes, por ser colportor em Portugal e duas vezes no Brasil. Ele vendeu em três meses numa viagem pelo Rio S. Francisco 2.000 cópias das Escrituras» (11). Três décadas depois, lembrando esse período, Eduardo Moreira afirmava: «A obra de propaganda, de qualquer género que seja, mais completa que se tem feito no país (parte continental) é a da Sociedade Bíblica Britânica […]. Nos 123 anos de acção em Portugal, os exemplares difundidos, chegariam um para cada português vivo, ainda descontados os estragos naturais, se não fôra a queima promovida e prègada pelos sacerdotes de Roma. E a todos os recantos do país teem chegado, sem dúvida, êsses benditos exemplares escapos do fogo, […]» (12). Matizando a ideia de uma amplitude geográfica plena, provavelmente hiperbolizada pela componente prosélita adstrita, o valor desses testemunhos resultava sobretudo da demonstração de uma coexistência entre a divulgação bíblica e a perseguição, sem que a existência da primeira invalidasse o cumprimento do Código Penal por parte das autoridades competentes, e sem que a segunda impedisse que certas formas de proselitismo não católico se levassem a cabo no Portugal católico oitocentista.

Apesar de prioritária e fundamental, a divulgação bíblica não constituiu o único meio de penetração do protestantismo na sociedade portuguesa, tendo sido dinamizadas e desenvolvidas outras áreas de intervenção igualmente influentes. Essa metodologia teve como efeito a progressiva, apesar de lenta, inserção de elementos do protestantismo na construção de sociabilidades e a gradual coexistência daquelas representações católicas anteriormente analisadas com outras interpretações do movimento reformado, capazes de o perspectivar como tendo um papel na construção de um sistema de liberdade religiosa e como parte integrante de uma plataforma de tolerância.

(1) A ideia, múltiplas vezes repetida nas pastorais contra o cristianismo reformado, de que existia um plano alargado de protestantização do país e das suas colónias raramente é corroborado pelas fontes de origem protestante, mais pragmáticas no delineamento dos seus objectivos. No entanto, encontram-se algumas excepções. Zacarias Clay Taylor (1851-1919), um missionário da Junta de Missões no estrangeiro da Convenção Baptista do sul dos Estados Unidos, formado na Convenção Baptista Brasileira e encarregue pela mesma de examinar e organizar o trabalho existente em Portugal, dirigia a 22 de Dezembro de 1908 uma carta ao presidente de Missões da Convenção americana, onde afirmava: «Há cinco milhões de habitantes em Portugal, 22 no Brasil e 12 milhões nas colónias, ou 40 milhões de pessoas que falam português, e Portugal é a Mãe-Pátria. Portugal será uma boa base para da qual evangelizar estes 12 milhões das colónias, também o lugar para recrutar missionários nossos no Brasil» (Op.cit. Herlânder Felizardo – História dos Baptistas em Portugal. Lisboa: Centro Baptista de Publicações, 1995, p.21).
(2) Luís Aguiar Santos – Protestantismo. In Dicionário de História Religiosa de Portugal. Dir. de Carlos Moreira de Azevedo, vol.3. Lisboa: Círculo de Leitores, 2001, p.80.
(3) Como na maioria dos países onde se implementaram comunidades protestantes. Guilherme Ferreira afirmava a esse propósito, em 1906: «Dois grandes sucessos – os maiores dos tempos modernos – assombraram o mundo no decurso do XV e XVI seculos: a reforma da religião e a invenção da imprensa. Esta precedera de algumas dezenas de annos, apenas, a pregação de Luthero, isto é, apenas o tempo necessário para os impressores de Moguncia e de Nuremberga attingirem aquella relativa perfeição que havia de permittir-lhes multiplicar opportunamente, por milhares de milhares, as Bíblias que a Allemanha inteira havia de reclamar d´elles, para saciar a sede da sua justiça na fonte viva da Palavra de Deus» (Guilherme Luís Santos Ferreira – A Bíblia em Portugal: apontamentos para uma monografia, 1495-1850. Lisboa: Livraria Evangélica, 1906, p.5).
(4) Robert Reid Kalley – Observações à instrução pastoral do Ex.mo Bispo do Porto, D.Americo sobre o protestantismo. Porto: Imprensa Civilização, 1879.
(5) Robert Kalley alerta, em 1843, para a necessidade de mandar «[…] suspender o anathema pronunciado contra as Palavras de Deos, e que os Magistrados as não arranquem tão desapiedadamente das mãos do povo, violentando a propriedade alheia, contra todas as leis divinas e humanas, […]» concluindo que «[…] será justo que se restituão os livros de que já se apoderarão, e se aconselhe a leitura delles em vez de serem anathemizados; […]» (Robert Reid Kalley – Aos Madeirenses. Funchal: Tipografia do Defensor, 1843, p.1).
(6) Em 1879, Robert Kalley afirmava ter distribuído entre os portugueses «[…] milhares de exemplares das Escripturas Sagradas, traducção do padre pereira, e edição de Londres»[1], garantindo seguidamente: «Conferi todo o Evangelho de S. Matheus d´esta edição, com o impresso em Lisboa, approvado pelo cardeal patriarcha, e cotejando capitulo por capitulo, verso por verso, palavra por palavra, e lettra por lettra, achei-os iguaes, á excepção d´um lugar, onde havia um erro da imprensa, a saber: “sio” em vez de “sido”» (Robert Reid Kalley - Observações à instrução pastoral do Ex.mo Bispo do Porto,D. Americo sobre o protestantismo. Porto: Imprensa Civilização, 1879, p.28).
(7) Robert Reid Kalley – Observações à instrução pastoral do Ex.mo Bispo do Porto,D. Americo sobre o protestantismo. Porto: Imprensa Civilização, 1879, p.28. Os sublinhados são do autor.
(8) Na análise da pastoral contra o protestantismo do bispo do Porto, Kalley esclarecia abertamente a sua p1osição a esse respeito: «O trecho de S.Paulo com que principia, é digno de toda a attenção, pois nos apresenta uma maldição (anathema) fulminada pelo inspirado apostolo, contra todos os que transtornassem o Evangelho que elle annunciava. Nem deve de admirar que Deus approve esta maldição, porque o Evangelho que S.Paulo prégou e chamou meu era o Evangelho de Deus, e o Evangelho de Christo, de sorte que aquelles que o transtornam, transtornam as boas novas que Deus mesmo prégou para o bem do nosso desgraçado mundo; e portanto não só offendem a Deus, mas tambem enormemente prejudicam aos homens. […] a pessoa que altera o Evangelho, merece ser amaldiçoada; e conforme as citadas palavras, está amaldiçoada, e por Deus. Quem estará, porém, incurso n´esta terrivel maldição? Por certo é todo aquelle que annuncia um Evangelho differente do Evangelho annunciado por S.Paulo. […]» (Robert Reid Kalley – Observações à instrução pastoral do Ex.mo Bispo do Porto,D. Americo sobre o protestantismo. Porto: Imprensa Civilização, 1879, p.3-5).
(9) Guilherme Luís Santos Ferreira – A Bíblia em Portugal: apontamentos para uma monografia, 1495-1850. Lisboa: Livraria Evangélica, 1906, p.56.
(10) Guilherme Ferreira declarava então a esse propósito: «Ao reviramento operado nos immutaveis principios da egreja romana succedeu, como era de esperar, egual reviramento na consciência dos seus adeptos. E o livro até então perseguido como de perigosa leitura para a salvação das almas, passou a ser considerado útil para robustecer a fé e acrysolar a piedade dos crentes; não, certamente, pelas boas novas de salvação, que sempre contivera, mas pelas cerebrinas annotações com que iam illustral-o, e completal-o, mui doutos e catholicos varões!» (Guilherme Luís Santos Ferreira – A Bíblia em Portugal: apontamentos para uma monografia, 1495-1850. Lisboa: Livraria Evangélica, 1906, p.67). As denúncias em relação à ilegitimidade dessas notas multiplicaram-se nos escritos protestantes da segunda metade do século XIX, onde se perguntava: «Quais notas? Existiam, porventura, quaesquer notas junto do texto da Vulgata recebido pelo Concilio de Trento? […] Confessa, Maldade! Confessa que bem sabes que taes notas nunca existiram a par d´aquelle texto! E que aproveitaste uma subtil argúcia de Benedicto XIV para sobre elle architectares uma dolosa accusação, para dares por estabelecida uma doutrina errada, […]» (Guilherme Luís Santos Ferreira – A Bíblia em Portugal: apontamentos para uma monografia, 1495-1850. Lisboa: Livraria Evangélica, 1906, p.111).
(11) Zacarias Clay Taylor citado por Hêrlander Felizardo – História dos Baptistas em Portugal, p.23. O missionário acrescentava ainda, na mesma missiva, que «Todos os tipos de trabalho evangélico estão restritos aos recintos fechados, sendo contra a lei distribuir folhetos nas ruas. Colportores da Sociedade Bíblica são constantemente lançados na prisão.» (Zacarias Clay Taylor citado por Herlânder Felizardo –História dos Baptistas em Portugal. Lisboa: Centro Baptista de Publicações, 1995, p.23).
(12) Eduardo Moreira – A situação religiosa em Portugal, Conspecto e Considerações. Lisboa: Edição do Portugal Novo, 1935, p.14.

Rita Mendonça Leite

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Igreja em Sota - Coimbra

Segundo os dados que foram possível obter, o testemunho evangélico na cidade de Coimbra começou no ano de 1909 com o saudoso irmão Stuart Edmundo McNair, o qual terá aberto a missão na Rua Sargento-Mor (carta de José Ilídio Freire, de 8 de Fevereiro de 1980 e artigo publicado no B. Inform. n.º 4 de Junho de 1989). Na carta acima referida dizia também que no ano de 1910 já o irmão Stuart publicava, havia 3 anos, uma revista intitulada "O Semeador" da qual foram encadernados 3 volumes. A revista era essencialmente dirigida a estudantes e demais classes eruditas, mas igualmente boa para todos em geral.

Edmundo McNair residiu durante 3 anos em Coimbra onde conheceu um advogado crente, o Dr. Joaquim Leite Júnior que pregava com entusiasmo a Palavra e ajudava o irmãoStuart em Aveiro, Ílhavo, etc. Também o Dr. John Opie veio leccionar para Coimbra, contratado como professor de inglês para a Universidade. Este irmão prosseguiu com os cultos na cidade universitária, sendo convidado por várias igrejas em redor de Coimbra. Permaneceu em Portugal cerca de 20 anos.

Aceitando o convite do Dr. Opie, vindos de Estarreja, onde haviam permanecido dois anos servindo ao Senhor, vieram para Coimbra em Março de 1939 os missionários Frank Smith e Dorothy Smith. Em Junho do mesmo ano o Dr. Opie teve que ir a Inglaterra e três dias depois o Senhor chamou-o para Si. O irmão Frank Smith ficou então com um pequeno grupo de crentes a reunir-se num primeiro andar na Rua Sargento-Mor. Por ser tão pequena a sala na Rua Sargento-Mor e ser num primeiro andar, mo mês de Julho de 1939 foi alugado e inaugurado um novo salão de cultos na Avenida Sá da Bandeira onde centenas de pessoas ouviram a Palavra de Deus e um número indeterminado de pessoas se converteram, entre os quais o nosso irmão José Seguro que pouco tempo depois já o Senhor o usava.

Entretanto, converteu-se ao Senhor em 1951 o nosso irmão Sr. João Henrique Figueiredo Varandas, o qual passou também a cooperar na Obra do Senhor, contribuindo com o seu ministério para o alargamento do testemunho evangélico na vasta área de Coimbra e arredores. Desde então, a Casa de Oração transitou por outros pontos da cidade de Coimbra, fixando-se no ano de 1958 na Rua da Sota, n.º 18, onde ainda permanece nesta data.

O testemunho evangélico estendeu-se a outras terras do distrito de Coimbra, tendo sido fundadas Casas de Oração, não sem que houvesse perseguições, oposições e ameaças, mas o testemunho ficou pela graça do Senhor. Seria exaustivo mencionar cada um dos servos de Deus que, abnegada e sacrificialmente, deram a sua contribuição para que a Obra se expandisse. Em Dezembro do ano de 2003 o amado irmão Frank Smith foi para a Glória e outros servos prosseguiram com o testemunho, tendo o seu ministério sido abençoado pelo Senhor da Igreja.

Samuel da Silva Oliveira
in "Refrigério"
Julho - Outubro de 2008

domingo, 19 de outubro de 2008

Historial da Igreja Evangélica Assembleia de Deus Pentecostal em Benfica no 40.º Aniversário

Decorria o ano de 1968 quando no mês de Outubro se reuniram pela primeira vez, numa pequena casa da Rua Manuel Múrias, no Bairro da Quinta do Charquinho, um punhado de irmãos, para cultuarem a Deus, sob a liderança do Pastor José António Lourenço. Desde esse Outubro longínquo de 1968 até aos nossos dias passaram 40 anos.
Desde esse tempo a Igreja passou por várias fases, desde o nascimento propriamente dito até à idade que socialmente se considera adulta. No princípio foram os anos de formação das estruturas físicas e mesmo espirituais; as reuniões com poucos cristãos, o apoio dos crentes das outras congregações vizinhas, nomeadamente a Pontinha.
Com o decorrer do tempo e já na década de 70, a congregação começou a desenvolver-se e dá-se a conversão de crianças, jovens e adultos ao Senhor Jesus Cristo, e o número de crentes começou a aumentar. Com um novo Pastor à frente da congregação surge a necessidade da mudança de lugar, pois a casa do Bairro do Charquinho passa a ser pequena para as necessidades da comunidade. Quando já decorre o ano de 1976 e o Pastor é o irmão José Manuel Borges, é inaugurada a Casa de Oração da Rua Professor Santos Lucas, lote 1657, em plena autarquia de Benfica, pelo que a congregação passa a ser conhecida por Benfica/Charquinho.
Em 1990 tomou posse do trabalho, vindo a substituir o Pastor Natálio Marques, o actual Pastor, António Gonçalves. Depois de um período algo atribulado, a congregação começou a experimentar um crescimento que acabou por levar a que no mês de Maio de 1995 fosse inaugurada a actual Casa de Oração, com melhores condições e um espaço mais amplo. No ano de 1998, no mês de Março, a Congregação de Benfica gerou a sua primeira missão, na Serra da Luz, onde actualmente um grupo de cerca de 30 pessoas cultuam ao Senhor.
No dia 9 de Maio de 1999, fruto do crescimento e da dinâmica, e porque se reuniram as condições bíblicas para ser uma Igreja autónoma, Governo, Susento e Propagação, celebrámos a nossa festa de autonomia com a participação da Igreja-mãe, Assembleia de Deus de Lisboa, na pessoa do seu Presidente, Pastor Vieito Antunes, e demais membros do ministério, conforme os princípios bíblicos, morais e éticos de uma relação que se queria contínua e duradoura. Na festa de autonomia estiveram presentes o Senhor Presidente da Junta de Freguesia de Benfica, Dr. Fernando Saraiva, como representante da Aliança Evangélica Portuguesa o Dr. António Calaim e como representante do Desafio Jovem o Pr. João Martins, entre outros convidados.
Depois da autonomia criámos a Rute - Associação de Solidariedade Social, a qual veio a ser reconhecida como Instituição Particular de Solidariedade Social em 2003, registada sob o n.º 58/2003, fls. 174, verso do livro n.º 9 das Associações de Solidariedade Social. Desde 1997 tem vindo a dar apoio junto da população da Freguesia de Benfica, inicialmente (de 1990 e até hoje) aos toxicodependentes, e depois alargando a sua intervenção através de um serviço de acolhimento de crianças (Berçário/Creche) onde temos 58 e uma lista de espera de cerca de 80. Actualmente, desenvolve também um serviço de apoio domiciliário.
No âmbito das missões, contribuímos desde o primeiro dia para o Departamento Nacional de Missões. Enviámos a família Marcos Robalo para Cabo Verde e mais tarde a família Nashyru Solmon, apoiamos a missão entre a etnia cigana em Estremoz, o Pr. Pedro Figueiredo e esposa em Santana na Madeira, o Pr. Ludgero e família em Miranda do Corvo, o Pr. Eugénio e esposa em Caminha numa parceria com a Igreja do Porto. Apoiamos ainda o Pr. Reginaldo na Sertã. as missionárias Alda e Lúcia em Pinhel, o Pr. Humberto Carvalheiro e família em Mondim de Basto e, no ano de 2007, enviámos para Macedo de Cavaleiros a família Celestino, Vera e Lucas Tabanez numa parceria com a Igreja do Porto, e para Aguiar da Beira, o Ir. Carlos Martins, a esposa Paula e os filhos Josué e Caleb. Além disto, temos contribuído para Timor, Angola, Moçambique e Guiné com contribuições financeiras e contentores de material diversificado. Já este ano iniciámos o apoio na compra de um terreno para construção de uma escola em Empada, Guiné.
No ano de 1998 vieram trabalhar connosco, vindos de Cabo Verde, o Pr. Euclides Gomes e sua amada família, os quais foram de grande bênção durante os cerca de 6 anos que estiveram no nosso meio. Em Novembro de 2006 veio trabalhar no nosso meio o casal Álvaro e Carla Ladeira e a sua menina.
Celebrando os 40 anos de existência foram muitas as pessoas, muitas delas anónimas, que contribuíram para o que somos hoje. Podemos dizer que passados estes anos "até aqui o Senhor nos tem ajudado" porque temos crescido humana, espiritual e financeiramente. Em tudo damos graças a Deus porque esta é a Sua obra e nós temos a consciência plena de que somos apenas despenseiros na Sua obra, por isso, "porque dele, e por meio dele e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amén!" (Romanos 11:36).
Pr. António Gonçalves
in Uma Família de famílias - 40 anos de história
Assembleia de Deus Pentecostal em Benfica

domingo, 12 de outubro de 2008

170 anos do desembarque de Robert Kalley na Madeira

No dia 12 de Outubro de 1838 desembarcava no Funchal o médico cirurgião Robert Reid Kalley com sua esposa Margareth. O desejo (ou deveria dizer o sonho?) deste jovem de 29 anos, natural de Mount Florida, era ser missionário na China como o fora Robert Morrison, mas o estado de saúde de Margareth aconselhava um repouso prolongado na (pouco) terapêutica ilha da Madeira.

A filantropia seria a grande marca que Kalley deixaria na ilha, reconhecida com louvor e amizade pelas autoridades civis e eclesiásticas locais. Mais tarde tudo mudaria, a conversão de milhares de madeirenses levará à perseguição e ao êxodo de quase duas mil pessoas que sairão para, na sua esmagadora maioria, nunca mais voltarem.

Importa recordar que hoje, 12 de Outubro do ano de 2008, se comemoram os 170 anos da chegada de um homem que virá originar o mais fantástico acontecimento de evangelização protestante no nosso país.

Paróquia de S. Tomé - Lusitanismo em Castanheira do Ribatejo

Foi no ano de 1944 que, numa pequena vila ribatejana, num pátio da Rua Palha Blanco n.º 43-45 em Castanheira do Ribatejo e sob o entusiamo do Doutor Luís César Rodrigues Pereira, se reuniram os primeiros crentes da futura Missão de S. Tomé. Juntou-se também o Pastor José Ilídio Freire e deslocava-se propositadamente a Castanheira o jovem Ramiro dos Santos para ensinar Escola Dominical, mas este viria a falecer prematuramente. Para apoiar e dar continuidade a este recente trabalho casou e fixou-se nesta vila, no ano de 1946, Joaquim da Silva Ribeiro e sua esposa Dª Gertrudes da Conceição Ribeiro, tendo sido inaugurado o primeiro templo na Rua Palha Blanco n.º 64, a 20 de Junho deste mesmo ano. Nascia assim a Missão de S. Tomé.
Desde os primórdios que a Escola Dominical se transformou num autêntico "viveiro" de onde saíram muitos jovens que viriam com entusiasmo a ajudar no trabalho evangelizador desta área do Ribatejo. Formou-se mais tarde a então Liga dos Samaritanos que, ao longo de pelo menos 20 anos, desenvolveu em S. Tomé uma benemérita acção social. Nas duas primeiras décadas o trabalho foi-se desenvolvendo e crescendo com o contributo de vários servos de Deus liderados pela visão, entusiasmo e dedicação do então Bispo D. Luís César Rodrigues Pereira (sagrado em 24/06/1962) que apelidava esta congregação de seu pequeno rebanho. Por volta de 1951 esta Missão integrar-se-ia na Igreja Lusitana mas só no início da década de 70 se tornaria numa Paróquia autónoma.
Em 1974 chegaria ao nosso meio o Rev.º António Pinto Ribeiro com sua esposa, que tinha estado como missionário em Angola durante 25 anos. Em 14 de Dezembro de 1980, Joaquim da Silva Ribeiro viria a ser ordenado ao diaconato pelo Bispo resignatário, D. Luís César Rodrigues Pereira, e em 30 de Novembro de 1986 seria ordenado ao presbiterado pelo actual Bispo Diocesano, D. Fernando da Luz Soares (sagrado a 1 de Maio de 1980). Contudo, só em 22 de Abril de 1989, o Rev.º Joaquim da Silva Ribeiro viria a ser colado como primeiro pastor da Paróquia de S. Tomé, onde serviu com vigor e dedicação até à sua resignação a 8 de Abril de 2001.
Entretanto, a 12 de Abril de 1987, a Paróquia de S. Tomé inauguraria no mesmo lugar o actual templo. Em 23 de Abril de 1990, e após um ano de vivência pastoral, ingressou na Igreja Lusitana, Maria Elisabeth dos Santos e Sena, que tendo liderado o Grupo de Jovens nos primeiros anos e pouco tempo depois ter sido nomeada representante secular da Paróquia, viria a ser instituída leitora a 10 de Abril de 1994 e ordenada ao diaconato a 1 de Novembro de 1997 (no primeiro grupo de mulheres ordenadas da Igreja Lusitana). Foi ainda durante 3 anos coadjutora do então párico, Rev.º Joaquim da Silva Ribeiro, e por sua aposentação viria a ser colada como responsável paroquial desta comunidade, no domigo de Ramos, a 8 de Abril de 2001.
Actualmente a Paróquia continua a desenvolver o seu trabalho apostando na formação da Escola Dominical, no Estudo da Bíblia para jovens e adultos, na vivência da Liturgia da Palavra e dos santos Sacramentos, no trabalho com os jovens, na actividade social e pastoral (sobretudo nos últimos anos, no acolhimento e no apoio a imigrantes) revelando assim uma forte vivência comunitária, alicerçada no amor de Deus , nos ensinamentos de Jesus e na acção do Seu Santo Espírito. Humanamente, este trabalho só é possível pelo incansável apoio e dedicação dos leitores Laudelina Camilo (1987), Sérgio Cabaço e Paulo Ferreira (1994), pelo Grupo de Jovens, pelos Professores da Escola Dominical e por uma activa Junta Paroquial. Para além da recente formação de um Grupo de Louvor, a Paróquia conta com o seu próprio Boletim - A Mensagem - fundada pelo Grupo de Jovens, em Dezembro de 1982.
Damos graças a Deus por toda a comunidade e desejamos e oramos no sentido de conseguirmos passar o testemunho e com fidelidade e alegria transmitir às novas gerações o desejo de Louvar a Deus, Testemunhar de Cristo e Servir aos homens. Assim Deus no ajude.
Elisabeth Sena
19 de Junho de 2005
59.º Aniversário da Paróquia de S. Tomé
Castanheira do Ribatejo

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Júlio Dantas e Vitorino Nemésio

Júlio Dantas

Não pude, com pesar meu, corresponder ao convite para assistir à sessão que a Academia das Ciências acaba de dedicar, à memória do seu presidente honorário, Júlio Dantas, na qual o seu sucessor, na cadeira de académico efectivo, o Prof. Vitorino Nemésio, fez brilhantemente a elogio histórico da grande figura literária e diplomática desaparecida, seguindo-se-lhe, ainda com maior brilho, o Dr. Augusto de Castro, diplomata e mestre de jornalismo.

Entretanto, a leitura dos jornais transportou-me à solene sala e aos momentos ali vividos, perante “rostos que vi e mãos que apertei”…

Devo a Júlio Dantas, grande de Portugal, no estilo como no porte, palavras de nobre acolhimento; e faz-me bem apregoar a gratidão, tão esquecida por aí fora, dizendo também o que possa elucidar ou edificar algum leitor jovem, desejoso de assistir a um surto futuro de cultura genuína, no meio dos cristãos reformados.

Quem procure conhecer a obra dantasiana terá de começar pela adolescência precoce do “Nada” e as verduras da mocidade irreverente, no “Auto da Rainha Cláudia”, desse que seria traduzido e aplaudido pela Europa fora, com a “Ceia dos Cardeais”; esse que enriquecera a arte portuguesa com tantas jóias, e na fecunda velhice deixaria inacabada uma “Tentação do Dr. Fausto”.

Quanto haveria para dizer sobre tão vasta actividade! Mas devo restringir-me; e assim lembrarei o diagnosticador de certa vesânia que alastra pelo Ocidente europeu (e o Dr. Augusto de Castro agora satirizou saborosamente; a qual entre nós se adopta com ingenuidade lastimável) na obra “Poetas e Pintores Rilhafoles”; e como intérprete da antipatia popular pela religião de fogueira e alfange, na inesquecível peça “Santa Inquisição”, onde magistralmente se dramatiza o medo que, por três séculos, esse tribunal estrangeiro, nunca assimilado, verdadeiro quisto no organismo nacional, tanto prejudicou, e ainda prejudica, a nossa psicologia colectiva.

Júlio Dantas veio muito depois dos primeiros românticos, os grandes apologistas da Bíblia, dessa Bíblia amada, da Marquesa de Alorna, dos Cenáculos e dos Saraivas: Garrett, Castilho, José Silvestre Ribeiro, Herculano, e depois João de Deus, Gomes Leal, Augusto Gil, para citar alguns dos principais.

No tempo de Dantas, outros interesses, outras visões, desviaram os pensadores e os artistas, da atenção que sempre merecerá a Carta Magna da Sociedade que nos formou, e devemos conservar em constante serviço e perpétua reforma.

Vitorino Nemésio

Agora outra geração surgida, outra mentalidade se formava. O Dr. Augusto de Castro, na sessão que nos reportamos, ao responder, em nome da Academia, ao discurso do Prof. Nemésio, disse-lhe: “Dantas foi o homem duma época. Você, meu caro Nemésio, é o homem de outra”. De facto, se na geração de Dantas a Bíblia estava um tanto esquecida, na do Prof. Nemésio, que já está ultrapassada também, ela recebeu ataques e doestos que já não correspondem à atitude dos maiores pensadores vivos, especializados na teologia bíblica. Uma geração fora de apologia entusiasta; outra, a de Dantas, de desmedido ataque com pruridos de cientifico. A actual é de reabilitação, não direi de Escrituras Sagradas, que dela não necessitam, mas dos humanos que as estudam.

O Prof. Nemésio, que conheci nos tempos da Associação Cristã da Mocidade foi personagem representativa da geração penúltima, ao usar na minuciosa obra “Mocidade de Herculano” argumentos negativos que provêm da escola de Tubinga (1847-1853). Já lá vai mais dum século depois de Cristiano Bauer ter produzido o seu libelo ultra-racionalista; e estudos geológicos, e descobrimentos arqueológicos, e maior seriedade e serenidade de juízo trouxeram à ciência bíblica outra atitude e outra compreensão.

O Prof. Nemésio hoje um crente católico-romano, se quiser rever o que afirmou, nesta matéria, bem poderá corrigir o que escreveu há trinta anos; e decerto teria o aplauso da sua Igreja, que, por sua vez, está corrigindo, desde o importante documento “Spiritus Paraclitus”, a sua oposição à difusão das Escrituras Sagradas, o que, pràticamente, se tornava tão pernicioso como o desrespeitá-la.

Eduardo Moreira,
Rostos que vi, mãos que apertei,
Portugal Evangélico, nº 522-525, Abril–Junho de 1964, pp. 8-9.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Paulo Mingot Maurício (1921 - 2008)

Transcrevemos, com o devido agradecimento, o seguinte texto da autoria do Rev. António dos Santos, pastor da Terceira Igreja Baptista de Lisboa, a propósito do falecimento recente de Paulo Mingot Maurício, conhecido dirigente evangélico e filho de um dos mais reputados fundadores da Obra Baptista em Portugal, Pastor António Maurício.

Nasceu em 5 de Fevereiro de 1921 na cidade do Porto. Terminou a sua abençoada carreira em 30 de Setembro deste ano de 2008.

O nosso saudoso irmão Paulo Maurício fez parte do pequenino grupo que deu origem à nossa igreja, reconhecida hoje como a Terceira Igreja Evangélica Baptista de Lisboa. No dia 1 de Julho de 1956 ele estava presente para iniciar um abençoado testemunho que perdura até ao dia de hoje. Agradecemos a Deus por ele e pelo seu incansável labor. Dirigiu as obras do nosso primeiro Templo, na altura reconhecido como um dos mais bonitos do país. Até hoje é mantido o logótipo que deu rosto à nossa Igreja. Substituiu o Pastor na sua ausência. Dirigiu a administração financeira num tempo de recursos muito reduzidos, com despesas de aluguer quase incomportáveis. Foi o nosso primeiro organista, preparado numa Escola da Alemanha, que atría muita gente só para o ouvir tocar. Dirigiu por largo tempo, com grande sucesso, a nossa Escola Bíblica Dominical. Na verdade, ele fez parte de toda a vida da nossa comunidade, interessando-se com grande dedicação e amor pelo seu testemunho e crescente desenvolvimento. No meio evangélico, todos nos lembramos do seu entusiasmo pelo Orfeão da Juventude Evangélica Portuguesa, que foi um marco de excelência, num tempo de tremendas dificuldades para o povo das nossas Igrejas. Na vida secular, foi gerente de sucesso numa grande empresa. Na família, foi marido carinhoso e amado, por 63 anos de matrimónio muito feliz.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Artur Wilks e Tomás Simpson

Dispus-me hoje a evocar rostos estimados e mãos acolhedoras de dois homens, pregadores do Evangelho em simplicidade afectiva e ânsia de expansão, mantenedores sucessivos do ministério da Palavra numa congregação metodista em Lisboa, onde a obra realizada teve uma aura que alguns, aliás poucos, dos vivos, poderão atestar. Aqui o documento histórico é o testemunho de coevos, como são o Rev.º Josué de Sousa, João Coelho, Ruben Pestana, segundo creio.

Esses dois ministros com os quais a Sociedade Metodista respondia a intantes [sic] pedidos, foram Artur Wilks e Tomás Simpson.

Artur Wilks

O Rev.º Artur H. Wilks foi o primeiro ministro da “Igreja da Estefânia”, instituído em 1901 pelo Superintendente residente no Porto Rev.º Roberto Hawkey Moreton. Era um homem na força da vida quando chegou. De estatura meã, louro e alegre, possuindo em grau elevado o dom da simpatia e uma certa facilidade linguística, foi um activo organizador, amando a obra que lhe era entregue.

A ele deveu um rapazito de dezasseis anos a oferta duma “Concordância Bíblica” de Cruden e o encargo de dirigir uma classe da Escola Dominical, assim como o convite (que coragem!) para ele subir ao modesto estrado daquela cave que Deus tanto abençoou, com grandes auditórios e até com o susto de certos adversários, educados numa escola que felizmente se considera talvez definitivamente extinta.

Fora um açoreano, Júlio Francisco da Silva Oliveira, que no Brasil o Santo Evangelho conquistara, e se filiara na Igreja Presbiteriana, no Rio de Janeiro, quem, domiciliado no Bairro da Estefânia, em Lisboa, fundou uma Escola Dominical em sua casa, início da missão depois estabelecida na Rua Angra do Heroísmo. Não pudera a sua Igreja, no Brasil, corresponder ao pedido que ele fizera, de até ali o estender a sua actividade evangélica, apesar da boa cooperação material que o fundador lhe dera, e foi justamente a Igreja Metodista que aceitou o generoso repto. Foram frequentes as visitas a Lisboa dos Rev.º R. Moreton e Alfredo Silva, repartindo eles então os seus serviços, ecumenicamente, pela nova Missão e a velha Igreja Presbiteriana Portuguesa, acomodada no salão inferior do templo escocês, na rua da Arriaga.

Muito devemos, todos nós, uns aos outros!

Frequentes eram os ataques de certa Imprensa e de certos púlpitos, estes por sinal ocupados por prosadores castiços como o P. Sena Freitas e oradores fecundos como Mons. Alçada de Paiva.

Curta foi a acção de Wilks, que, depois de uma crise que mereceria ser descrita em “novela corta”, na Primavera de 1903 declarou-se-lhe uma enfermidade de origem psíquica que o inutilizou por muito tempo e o impediu de regressar ao pais onde fora acolhido com alegria e cuja língua conseguira dominar, o que o tornaria tão útil entre nós.

Tomás Simpson

Em Setembro desse mesmo ano iniciava no Porto o Rev.º Tomás Artur Simpson a aprendizagem do português, em cujo o uso aliás sempre se sentiu fraco, ele que, noutra linguagem, a música, se sentiu tão à vontade, como organista hábil e na composição de alguns hinos com particular beleza.

A uma letra do autor destas singelas linhas intitulada “Cantemos a Cristo”, canção destinada às crianças, deu uma interpretação melódica adequada; mas superior exemplo da sua arte é essa bela partitura para a inspirada poesia de D. Elvira de Andrade Melo e Silva “Aleluia, eis o farol…”

Tomás Simpson foi apresentado à Igreja Metodista de Lisboa a 11 de Agosto de 1904, e durante três anos deu ao pequeno rebanho nutriente pasto, em sermões de textura clássica e sólido fundo teológico, para o que revelou particular competência.

“Recordar é viver”, é costume dizer-se; e a Igreja, para viver, necessita de recordar o que o Espírito de Deus tem feito por meio dos membros dela, em gerações sucessivas. Lembremo-nos de que os profetas tinham a função, não só de prever como de recordar, ligando sàbiamente o passado ao futuro.

A Igreja Lisbonense, hoje Presbiteriana, que ainda há pouco celebrou com grande sentido de dignidade e de afectividade, o centenário do nascimento do saudoso pastor José Augusto Santos e Silva, o primeiro que teve desde a sua adopção do regime congregacional, é a herdeira directa da primeira actividade local, não só missionária como eclesiástica, feita num magnífico espírito de cooperação de diferentes confissões mas de idêntica finalidade cristã.

Eduardo Moreira,
Rostos que vi, mãos que apertei,
Portugal Evangélico, Janeiro-Março de 1964, nº319-321, pp. 9-10.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

As pequenas coisas da história ou a pequena história das coisas

Não sei se suportareis aqui um fragmento de memórias de quem entrou na idade de recordar, e sente, como aliás todo o ser normal, a necessidade de comunicar.

Para Eça de Queirós era o recordar um “amargo de prazer”. Mas será, para o cristão, amargo esse prazer, se o amor o unge e o embeleza?

Útil será, quando é história genuína, mas da chamada “pequena história”.

Falemos, a propósito, do que é História. Convencional é aquela que se repete, mais ou menos inalterável, sem se cuidar muito da sua autenticidade; mas História viva é a que se documenta e se sujeita a um critério permanente de revisão e de correcção ou aumento Assim é que a primeira oficialização da “Igreja Católica Apostólica Ortodoxa”, operada na Arménia cerca de 301, pela conversão do seu rei Tirídates, inicia, quando estudada, a correcção do retrato político de Constantino Magno, como tal retrato se foi transmitido, de narrativa em narrativa, ao sabor de duas correntes antagónicas, ambas exageradas. Assim, também, o conhecimento documental da soberania efectiva de Ramiro como rei de Portugal, assente em Viseu, no século X, acrescenta ao conhecimento da nossa história dinástica, só iniciada dois séculos depois, um esquecido capítulo da nossa história cívica.

Isto se dá, e os dois exemplos bastam para o demonstrar, na “História Grande”, como se pode dar na “Pequena História”, afinal subsidiária de aquela, para em muitos casos a tornar compreensível.

Pequenos factos? Vedo o que nos diz Sant’Iago (cap. 3:4): “…também as naus que, sendo tão grandes, levadas de impetuosos ventos, se viram com um bem pequeno leme”.

Eduardo Moreira,
Rostos que vi, mãos que apertei,
Portugal Evangélico, Janeiro-Março de 1964, nº319-321, pp. 9-10.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Rostos que vi, mãos que apertei

Nos anos sessenta, já a entrar na casa dos oitenta anos, redigiu Eduardo Moreira no periódico Portugal Evangélico algumas memórias que hoje nos são muito úteis para conhecer o espírito e mentalidade dos primeiros tempos do protestantismo em Portugal.

Rostos que vi, mãos que apertei são pequenos textos onde se misturam testemunhos do autor com pequenas biografias de homens com quem conviveu durante a sua vida (protestantes ou não).

Reconhecendo a importância para todos nós desta pequena história, proponho apresentá-los nos próximos dias aqui n'O Pioneiro.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Igrejas Acção Bíblica - Rectificação

O movimento denominado Acção Bíblica, teve o seu início na Suiça (Cantão de Neuchâtel), cerca de 1916, logo mais chegaria a Genebra, isso, cujo fundador foi o Evangelista escocês, Sr. Hugh Edward Alexander, que levou a Jesus Cristo, o Sr. Paul Samuel Matthey Prévot, aluno da 4ª Sessão da Escola Bíblica, então no Ried, Bienne, em 1923, o qual viria a ser o pioneiro do movimento em Portugal.

A filha do Evangelista, Sr. João Oliveira Coelho, D. Lídia Coelho estudava na mesma Escola Bíblica, e tendo seu pai ido visitá-la em 1923, aproveitou a oportunidade para fazer sentir aos responsáveis daquela escola, da necessidade de evangelistas em Portugal.

Os servos de Deus, Sr. Paul Samuel Matthey Prévot e sua esposa, D. Emmy Matthey sentiram a chamada para vir trabalhar em Portugal, e foi na Figueira da Foz, naquele ano, que começou o movimento da Acção Bíblica em Terra Lusa, tendo o mesmo a preciosa ajuda do então jovem evangelista, João de Oliveira Coelho, Congregacional e ex-Presbiteriano, na Figueira da Foz.

Outros obreiros vieram para Portugal afim de desenvolver o movimento da Acção Bíblica, como, os Srs. Charles Mathez, Pierre Edward, Daniel e Felipe Mathez, Heinz Muhlheim., o St. Ernest Eicher e esposa e sua família e não só, mas colaborariam outros crentes, entre eles, o Sr. Paul André Dubois. (cf. O Defensor nº 15, de Outubro de 1971, onde se lê Editores Conselheiros: Professor João de O. Coelho e P.A.Dubois = Paul André Dubois e o Sr. Robert Spichiger. Se o Sr. Dubois era ou não da Acção Bíblica, por colaborar com os que a ela pertenciam, pensei que ele o seria também).

Implantação: O movimento começou na Figueira da Faz em 1923, foi implantado na Vila de Cascais em 1928, a Beja em 1929, tendo chegado a Sesimbra e a Olhão , no ano de 1930, a Loulé e a Vila real de Santo António, em 1931, a Mértola em 1945, a Boliqueime, em 1948, etc.

Eis, em síntese, o que foi o começo de cada uma destas Igrejas Evangélicas implantadas em Portugal, desde o ano de 1641 a 1923.

Nota: Quem desejar saber mais sobre a Acção Bíblica em Portugal, poderá saber ao ler a obra – " Poder do Evangelho em Portugal", Relatos missionários de Samuel Matthey – Faro, 1988. Pedidos a: Associação da Acção Bíblica em Portugal -Rua do Pé da Cruz, 12 8000 Faro.

António Costa Barata

Amora, 2008-06-13

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Alexandre Herculano e as Escolas Dominicais

Com o objectivo de reabilitar socialmente as crianças de rua, Roberto Raikes, protestante anglicano, fundou em Inglaterra no século XVIII as Escolas Dominicais. O objectivo destas era instruir religiosamente as crianças, ensinar a ler, escrever e contar, e retirá-las da pobreza dando-lhes alguma dignidade de vida.

Com sinais de grande benifício social, rapidamente se expandem por todo país e terão até hoje grande impacto um pouco por todo o mundo cristão.

Ainda antes do protestantismo penetrar em Portugal e com ele as Escolas Dominicais, Herculano redige o seu elogio a este movimento que será uma marca indissociável das igrejas evangélicas.

Apresentamos aqui o texto que transcrevemos do original de 1837.

O Panorama, nº33, 13 de Dezembro de 1837

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Arquivo histórico adventista


Excelente notícia a deste blogue dedicado ao arquivo histórico da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Os Adventistas comemoram 104 anos de presença contínua em Portugal este ano, em que também cumpre o seu 95.º aniversário o caro pastor Ernesto Ferreira, pioneiro nos estudos históricos sobre a presença no nosso país desta igreja.

domingo, 6 de julho de 2008

O túmulo de Robert Kalley - Dean Cemetery, Edimburgo


Descubram Edimburgo e encontrarão a sua New Town, o reflexo do crescimento desta cidade escocesa no séc. XVIII. Junto ao rio Water of Leith, repousa o Dean Cemetery e diversas personalidades da história da Escócia.

A personalidade que aqui me trouxe terá referências limitadas na história dos seus conterrâneos, mas entre os protestantes portugueses e brasileiros, Robert Reid Kalley, tornou-se figura incontornável.

O livro de registos do cemitério atesta a data de falecimento, 18 de Janeiro de 1888. O seu corpo seria aqui sepultado três dias depois, após culto celebrado pelo missionário Hudson Taylor. A morada da sua quinta mostra o endereço em português, “Campo Verde”.

O túmulo está em local recôndito e incrustado numa parede amuralhada. A pedra tumular, assente verticalmente, apresenta a seguinte inscrição:

“TIL HE COME”

IN TENDER AND REVERENT MEMORY OF ROBERT REID KALLEY, M. D.

BORN 8TH SEPTEMBER 1807 AND FELL ASLEEP 17TH JANUARY 1888

A SERVANT OF GOD IN MADEIRA, BRAZIL AND OTHER LANDS

HIS DELIGHT WAS IN THE LAW OF THE LORD AND IN HIS LAW HE MEDITATE DAY AND NIGHT WHOSE FAITH FOLLOW CONSIDERING THE END OF HIS CONVERSATION

JESUS CHRIST THE SAME YESTERDAY, AND TODAY, AND FOR EVER

ERECTED BY HIS LOVING AND SORROWING WIFE SARAH POULTON KALLEY WHO REJOINED HIM THURSDAY 8TH AUGUST 1907
(LAID TO REST BESIDE HIM 12TH AUGUST)

HEIRS TOGETHER OF THE GRACE OF LIFE I PETER 3:7

Duas placas dedicatórias, provenientes das igrejas portuguesas e brasileiras, ladeiam o túmulo com as seguintes inscrições:

1 - “M”

TO THE BELOVED AND HONOURED MEMORY OF THEIR FATHER IN THE GOSPEL DR. KALLEY FROM THE MADEIRENSES CHURCES “SCATTERED ABROAD” IN 1846 BY ROMISH PERSECUTION1838 TO 1888THE NAME OF JESUS WAS MAGNIFIED2- “B”

A TRIBUTE OF LOVE AND GRATITUDE TO THEIR FIRST TEACHER AND PASTOR DR. KALLEY

FROM CHURCHES FOUNDED BY HIM IN RIO DE JANEIRO AND PERNAMBUCO BRAZIL

1855 TO 1888

THE SON OF GOD JESUS CHRIST WAS PREACHED



Estas inscrições não conseguem contar toda a história de Robert Kalley. Foi médico, professor e pastor entre os portugueses madeirenses. Fundou um hospital e escolas primárias de acesso gratuito para crianças e adultos. Foi também um propagador da fé evangélica ao serviço da Igreja Livre da Escócia (de matiz presbiteriana) e, por seu intermédio, organizou em 1845 a primeira igreja protestante portuguesa. Pela sua palavra pregada, cerca de 2000 madeirenses recém conversos presbiterianos tiveram de abandonar a ilha para Trindade e Tobago, Estados Unidos, Havai e Brasil, dada a perseguição religiosa que lhes foi movida.

Após expulsão da ilha da Madeira, iniciou nova acção evangelizadora no Brasil e ali seria igualmente pioneiro do Protestantismo brasileiro. Destaque-se também o facto de ter sido uma personalidade estimada pelo Imperador do Brasil, D. Pedro II.

É uma vida cuja obra está para além deste túmulo. Daí que, para além da possível visita a Edimburgo que possam prestar ao Dr. Kalley, se sugira a leitura de “Madeirenses Errantes” do jornalista Ferreira Fernandes, “Vidas Convergentes” de Eduardo Moreira e “Robert Reid Kalley - O apóstolo da Madeira” de Michael P. Testa.


O primeiro símbolo do protestantismo em Portugal


O “χ” e o “ρ” representam as iniciais da palavra “Cristo” quando escrita em grego (χριστος). Foi um dos primeiros símbolos do paleocristianismo. A ligação deste elemento gráfico à igreja primitiva, terá feito com que os protestantes o tivessem adoptado para colocação em alguns dos seus templos.

Em 1845, quando foi criada, em Inglaterra, a Young Men’s Christian Association (YMCA), os seus fundadores adoptaram este mesmo símbolo para representar esta organização. Em 1894, foi criado, na Igreja Metodista do Mirante (Porto), o ramo português da YMCA. A então União Cristã da Mocidade (UCM), adoptou igualmente o símbolo da sua congénere. Como a UCM aglomerava as diversas “uniões” de juventude das igrejas evangélicas, verificamos que este emblema foi adoptado por alguns movimentos e denominações pioneiras do Protestantismo em Portugal.

O “χρ” surgia como parte de pequenas tapeçarias que adornavam as mesas da “Ceia do Senhor” ou os púlpitos. Se ainda hoje visitarmos templos históricos como o da Primeira Igreja Baptista de Lisboa ou o da Igreja Evangélica Presbiteriana Rossiense (Abrantes), deparamo-nos com algumas destas peças decorativas.

Contudo, a evidência mais flagrante da utilização deste logótipo como o possível primeiro elemento identificador do Protestantismo em Portugal, constata-se com a sua utilização por parte do pastor congregacional Eduardo Moreira quando escreveu o seu artigo sobre os protestantes portugueses no jornal “O Século” (edição de 21 de Abril de 1910).

O facto de Eduardo Moreira também exercer a actividade de ilustrador, terá contribuído em grande parte para a divulgação deste símbolo.Ainda está por apurar as razões pelas quais o “χρ” perdeu a sua herança identitária junto dos evangélicos portugueses em detrimento de um outro símbolo paleocristão - um famoso peixe estilizado que adorna as traseiras de alguns automóveis.

João Paulo Henriques

sábado, 28 de junho de 2008

Igrejas Protestantes Centenárias

No templo da Igreja Presbiteriana na Febo Moniz realizaram-se conferencias sobre os centenários das Comunidades Episcopal , da primeira Assembleia dos Irmãos das Amoreiras, ambas em Lisboa, com as datas 1877 e 1880, respectivamente. O Ancião Orlando Luz, da Comunidade dos Irmão, leu uma oração que faço questão arquivar no meu Blogue,
a saber:

Senhor, ajuda-me a servir-Te
servindo com aqueles que Te servem
a seguir-Te de perto seguindo com aqueles que Te seguem
e amar-Te mais amando todos aqueles que Te amam.
Pois ainda,
que conhecesse todos os mistérios e toda a ciência
e ainda,
que tivesse toda a fé de maneira tal
que tranpostasse os montes,
se não tivesse amor
nada seria !
I Cor. 13

PS. Na proxima Quarta feira, pelas 19 horas,
outras conferências sobre outras Igrelas de Lisboa que são centenárias.

sábado, 24 de maio de 2008

Vidas Convergentes - 50 anos

No dia 24 de Maio de 1958 imprimia-se a única edição do livro Vidas convergentes: história breve dos movimentos de reforma cristã em Portugal a partir do século XVIII da autoria de Eduardo Moreira, inculuida na colecções Oikomene da Junta Presbiteriana de Cooperação.

Já com sessenta e um anos de idade, Eduardo Moreira publica então uma obra impar na cultura protestante portuguesa, pois trata-se da mais completa monografia sobre a história dos evangélicos no nosso país até ao advento da República.

Preservar a memória de um universo religoso esquecido de si mesmo será a motivação deste intelectual português que um ano antes publicara Crisóstomo Português, Elementos para a História do Púlpito.

Este post é uma homenagem a Eduardo Moreira, o Pioneiro Protestante.

A todos aqueles que queiram adquirir esta obra, é favor contactar-nos por email.

 
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